Palavras Domesticadas

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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Zé Ramalho Lança A Terceira Lâmina (1981)

Em 1981 Zé Ramalho já havia se consolidado como um dos grandes nomes da MPB, pela qualidade e boa aceitação de seus dois primeiros discos, Avohai e A Peleja do Diabo com o Dono do Céu. Naquele ano ele lançaria seu terceiro trabalho, A Terceira Lâmina, cercado de grande expectativa. Na época era comum, quando um artista de nome lançava um disco, se fazer um clipe no Fantástico, para divulgação.
Num domingo próximo ao lançamento do álbum, o jornal O Globo fez uma matéria com Zé Ramalho, falando sobre o lançamento do disco. Num pequeno texto introdutório da matéria em si, vinha em destaque a frase "No Fantástico". E a introdução dizia:
"Zé Ramalho tem quatro anos de vida profissional. Seu primeiro long-play, 'Avohai' vendeu cem mil cópias; o segundo, 'A Peleja do Diabo com o Dono do Céu', vendeu 170 mil, o que lhe valeu dois discos de ouro da CBS. Seu novo disco, 'A Terceira Lâmina' tem no título tanto uma alusão a uma faca que abre novos caminhos como uma advertência sobre os perigos de uma terceira guerra mundial. Tendo o Nordeste como centro e o Brasil como perspectiva de voo, Zé Ramalho é uma espécie de cantador repentista moderno, ora agressivo e irritado com a dor de dentes que o incomoda durante a entrevista, ora doce como o menino da Paraíba que, aos 31 anos, ainda não deixou de ser. Este ano, Zé Ramalho e Amelinha não vão participar do Festival MPB-81"
Após esta introdução vem a matéria, que não é assinada. O interessante é que é divulgada a exibição do clipe da música de trabalho, que dá título ao disco, porém lembro-me bem que naquele domingo assisti ao Fantástico, mas o clipe não foi exibido. Um fato estranho, pois a divulgação foi feita exatamente pelo órgão de imprensa oficial das Organizações Globo. Abaixo a reprodução da matéria, que se intitula "Zé Ramalho e o seu terceiro disco: tudo é mistério e natureza":
 "Zé Ramalho se apresenta hoje no Fantástico cantando a música que dá título ao long-play. Veio de Fortaleza para fazer a gravação e sua mulher Amelinha deveria trazer o violão. Como se adiantou a gravação um dia, ele disca, nervoso, o telefone para conseguir um instrumento emprestado. Consegue rápido e dá um sorriso, esforçando-se por vencer a dor de dente e a gripe que lhe causaram o ar condicionado do hotel.
- Tudo na vida, diz ele, depende do mistério e da natureza. E quando falo da natureza, me refiro ao ato da criação, também ele uma coisa natural. Não se pode compor como quem escreve um documento, é preciso esperar para sentir a força estranha de que fala o Caetano. Respeito muito o prisma sagrado da criação, procuro explorá-lo intensamente. O poder de cantar, de lançar sinais forma uma aura energética que vai alcançando as cabeças.
As doze músicas do disco são composições suas e, sem serem puristas do ponto de vista musical, têm em sua base quase sempre o baião, o xaxado, o coco, o repente nordestino. À exceção de uma delas, 'Filhos de Ícaro', que é uma canção e incorpora no ritmo pulsações de samba.
- O Rio me deu campo de trabalho, foi a porta por onde comecei a chegar ao público. Daí partiram meus primeiros impulsos para o resto do Brasil. Deixando de lado este folclore da violência, o Rio é um centro cultural que catalisa informações e promove encontros para nós, artistas. Por isto costumo dizer que o Rio e São Paulo são os alto-falantes do Brasil.
Numa homenagem aos aficionados da asa delta, para ele um símbolo carioca. Zé Ramalho escreveu esta letra:
- As alturas merecem todas as asas/homens de plumas/antes do sol derreter as unhas/desse teu pássaro/pulem os muros/fogos e clarões na cidade/anunciando que o sonho não morreu.
Mesmo usando os alto-falantes do Sul-Maravilha, ele prefere  viver em Fortaleza:
- Quando a cabeça esquenta muito, vou para lá, meu centro do mundo, deitar na rede, tomar uma cachaça de engenho e chupar caju ouvindo o barulho do mar. Aqui não consegui ter uma uma adaptação doméstica, caseira, que me dê o refresco da rede. Lá posso criar minha família com tranquilidade.
Do primeiro casamento Zé tem dois filhos, Quico e Antônio, e agora, João, com Amelinha:
- Já dá pra começar um time de futebol. Queria fazer mais, ter uns sete filhos. Eles são os meus maiores fãs. Quero me sentar numa mesa cheia de crianças.
'A Terceira Lâmina' está sendo considerado seu trabalho mais importante. Ele espelha suas inquietações frente ao presente e ao futuro:
- Não sei se é uma previsão ou premonição, mas ela, a lâmina, está bem perto. Estamos na definição de um momento em que o povo está submetido aos fazendeiros da humanidade, querendo de qualquer forma fugir da ignorância, apesar de estar bem perto dela.
Isto ele diz referindo-se à música do título. Para ele, o conjunto das músicas é um hino à liberdade:
- Trata-se de um poemário, em que umas se ligam às outras pela paixão e intenção. E uma contribuição de incentivo ao homem e à criação. Pretendo a liberdade sem nenhum arbítrio, desde a liberdade de voar em asa delta à de sonhar no meio da rua.
- Mas como você consegue ser ao mesmo tempo tecnológico (no sentido de o disco usar grandes recursos de estúdio) e familiar?
- É um dos desafios que o cantador tem de vencer. No Nordeste, os repentistas dizem que tenho meio olho de cantador. Metade sou nordestino, metade sou da tecnologia e do futuro e procuro me equilibrar entre estes dois polos.
- Já que você e Amelinha não vão ao Festival de MPB e se o disco não é um veículo ao alcance de todo mundo, de que maneira pretendem continuar se comunicando com o público?
- O maior investimento para nós é o show. Com o espetáculo 'Frevo Mulher' fizemos mais de 60 apresentações em todos os estados brasileiros (menos no Amazonas, porque em Manaus não havia um local disponível), todas elas em estádios, concentrando um grande número de pessoas. Fomos vistos por mais de 300 mil pessoas ao vivo. E gosto muito também da divulgação em rádio. A música é algo mais para se ouvir do que para se ver, não é? Eu adoro ir às rádios, poder falar com o público por telefone, conversar.
Zé recorda ainda um dos momentos mais emocionantes do show 'Frevo Mulher', quando ele e Amelinha se apresentaram no presídio Hélio Gomes, no Rio:
- Era uma plateia só de homens, eles assistiram calados, as palmas deles pareciam tristes por estarem presos, mas ao mesmo tempo tinham uma grande vibração."


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